Após
três longos anos de tentativas e planejamento, chegou
a hora de colocar em pratica os ensinamentos teórico/práticos
acumulados nestes três anos de pequenas velejadas no Guaíba
e, enfim, realizar esta aventura que carinhosamente denominei
“Projeto Jaguarão”. Em novembro de 2010 participei
do Cruzeiro/Regata PoA x Tapes, onde conheci a bela pessoa e
querido amigo Sr. Reynaldo Di Benedetti. No jantar em Tapes,
após a chegada no CNT, comentei da vontade de ir até
Jaguarão e, após dois dias do retorno a Canela/RS,
recebi a ligação telefônica do Sr. Reynaldo
me perguntando se o Projeto Jaguarão estava de pé.
A partir deste telefonema, iniciaram os preparativos para essa
singratura. São muitas coisas a providenciar. Baterias,
Caixas de gelo, comida, revisão do motor, cartas náuticas,
waypoints, contatos, telefonemas, acompanhamento de previsão
do tempo, entre outras tantas. Se a navegada chegar a proporcionar
a metade da satisfação do planejamento, será
ótima. Mas vamos ao que interessa. Meu veleirinho, o
Júnior, é um marreco 16 pés e não
tem as condições necessárias para tantos
dias embarcados, o que nos levou a irmos no Maquiavel, um O’day
23 pés de propriedade do Sr Reynaldo. Bela embarcação,
com o necessário para enfrentarmos (os dois sem praticamente
nenhuma experiência) a Lagoa dos Patos e a Lagoa Mirim.
Após confirmarmos a previsão do tempo (SUL), resolvemos,
mesmo assim, partirmos para a primeira perna.
Dia 22 de março
09h15min. Saída do ICG motorando, pois, o vento era praticamente
Zero e o Guaíba estava um espelho de tão liso.
Após uma trancada de bolina no canal do emissário
cloacal em frente às bóias de saída do
ICJ, como a mesma não desceu mais, ingressamos na Marina
do Lessa para providencias. Após este probleminha solucionado,
seguimos viagem a praia do Araçá, aonde chegamos
às 14h30min. Entre uma cervejinha e outra (várias),
resolvemos conectar o liquinho na válvula do fogão,
o que demandou bastante tempo, pois a mesma teimou em não
liberar o gás. Como diz o ditado, teimoso é quem
teima com alemão, hehehe........ e acabamos conseguindo
resolver mais um probleminha, resultando numa belo e ótimo
Talharim a Bolognesa preparado pelo Sr Reynaldo. De barriga
cheia e após mais algumas loiras geladas (20h00min) resolvemos
nos preparar para a próxima perna.
Dia 23 de Março.
06h10min. Saída da praia do Araçá com destino
ao Farol Cristóvão Pereira. Cabe uma observação:
Por se tratar da segunda entrada na Lagoa dos Patos, marquei
o rumo para o pontal de Tapes para depois cruzarmos em direção
ao farol. Como o vento era pouco (Sul) e após as 12h00min
começou a aumentar levantando ondas maiores, ao chegarmos
ao pontal, resolvemos fundear no Biru. Às 17h00min fundeamos
no Biru com 1,9 m. Ao anoitecer o vento mudou de direção
e acabou encalhando o Maquiavel com 0,80 m fazendo com que o
fundo (caixa da bolina) ficasse batendo.
Dia 24 de Março
04h00min. Como o fundo continuava batendo devido à mudança
de direção do vento e queda de nível do
local de fundeio, decidimos fundear com mais profundidade. La
fui eu para a água, que felizmente não estava
gelada e desencalhamos o veleiro. Dormimos mais um pouco e alteramos
a rota para o CNT. Após bom banho, abastecemos o combustível,
a caixa de gelo e as geladas e, devido à previsão
de vento forte permanecemos em Tapes.
Dia 25 de Março
Uma das coisas boas que estas aventuras nos proporcionam, são
o conhecimento e reencontro de pessoas da qualidade do amigo
Emilio do veleiro Adriana que, mais uma vez nos orientou e instruiu
nesta singratura. Acabamos pernoitando em Tapes por questões
climáticas desfavoráveis.
Dia 26 de Março.
05h45min. Saída para Barra falsa do Bojurú. Saímos
motorando na saída do canal de acesso ao CNT orientados
pelo GPS. Saída perfeita, nos fazendo acreditar mais
do amarelinho ETREX. Após G2 calçando ainda no
motor. Às 11h20min deixamos o Fte Desertores a boreste,
e mesmo com vento desfavorável, resolvemos ir à
barra falsa do Bojuru. Às 17h00min, um pouco mais ao
sul do Capão da Marca, tentamos fundear para pernoite,
o que foi, lastimavelmente, um grande erro nosso. Já
li vários relatos de velejadores que retornam para porto
seguro para fundeio e não levamos isso em consideração.
Seria mais fácil e menos sacrificante obedecer a força
da natureza (vento e ondas) e nos dirigirmos ao Cristóvão
Pereira. Lançamos ancora, mas a mesma garreou e após
muita luta e onda, levantamos ancora e resolvemos (dois teimosos)
ir à Barra Falsa do Bojuru. Às 18h00min rumamos
para Barra Falsa. Mais uma vez, acredite se quiser, só
no GPS. Como é preocupante o não conhecimento
visual do local de navegação. Eu não sabia
que existem balizas na volta do farolete do Bojuru. Mas apesar
dos pesares, fomos avançando lentamente até a
entrada da barra falsa, onde cometemos mais um erro que nos
custou a ruptura da bolina. Mais tarde em Pelotas, quando retiramos
o Maquiavel da água, foi constatada a quebra da bolina.
Por questão de cansaço, resolvemos desconsiderar
os waypoints de entrada da barra falsa e encalhamos novamente.
Lá fui novamente para a água às 04h00min
da manhã. Novamente tive sorte e a temperatura não
estava tão ruim. O fundo era de lodo o que facilitou
o desencalhe. Perdemos o croque. Acabamos não almoçando,
nem jantando. A tensão e o desgaste físico foi
enorme, mas quem sai para este tipo de aventura e teima, esta
propenso a isso. Fomos dormir um pouco para repor nossas energias.
Dia 28 de Março.
08h00min. Saída do Bojuru para VSG Pelotas. O sistema
elétrico entrou em pane e ficamos sem bateria no veleiro.
Como tínhamos levado poucas pilhas para uso no GPS, contando
com o uso, através de cabo de alimentação,
pelas baterias, a coisa começou a ficar apertada. Mas
são dois teimosos e,............ fomos nos dirigindo
lentamente ao canal da feitoria. Cabe uma observação:
O paliteiro dentro do canal é pra rebentar qualquer saco.
Com as pilhas no limite, o GPS começou a entrar em parafuso.
Era um tal de liga e desliga GPS, que não sei se o liga
e desliga não gasta mais pilha, mas tudo bem. Foi muito
difícil, mas vencemos. Quase na entrada do canal do Canal
São Gonçalo o estresse, cansaço, sabe mais
o que, eram tão grandes que quase cometemos um erro fatal.
Cruzamos a frente de um navio (Era enorme, visto por nossos
olhos). O navio vinha em sentido contrario ao nosso, estávamos
a bombordo do mesmo e cruzamos a sua frente ficando em seu boreste.
Nunca fui tão xingado em minha vida. Posicionei-me na
proa do Maquiavel e iluminei o veleiro com a lanterna para poder
ser visto, por isso escutei seu xingamento. Mas passou e estamos
bem. Como é importante a releitura das normas para evitar
abalroamento. Ingressamos no Canal do São Gonçalo
e, mais uma vez não sabendo das bóias do canal,
quase abalroamos a primeira. Acabamos procedendo as amarras
no trapiche do Clube Veleiros Saldanha da Gama às 21h00min.
Que belo clube, que cervejinha gelada, que bela janta e que
belo sono, após um reconfortante e revigorante banho
quente. Já tinha lido muito a esse respeito, mas só
passando por situações assim é que realmente
se dá valor a essas pequenas coisas que a modernidade
nos oferece.
Dia 29 de Março.
Veleiros Saldanha da Gama Manutenção elétrica.
Ruptura de solda em um dos cabos de distribuição
no painel elétrico. Ajuste do trim do motor e da presilha
que mantém o motor na posição. Manutenção
dos carrinhos da Vela Grande, o que estava impedindo o içamento
e o arriamento da mesma. Troca da Genoa G2 para G3. Como é
apertado o trilho de encaixe da genoa com enrolador. Na pauleira
é quase impossível essa troca. Pernoitamos no
VSG, jantamos na sede do clube e conhecemos muitas pessoas interessantes.
Dia 30 de Março.
Veleiros Saldanha da Gama. Retirada do Maquiavel para providencias
de manutenção da bolina. Pensamos que o cabo de
levantamento da bolina tivesse se soltado na barra falsa do
Bojuru, mas o que tinha ocorrido era sua ruptura com consequente
soltura da amarração e perda de parte da bolina.
Tivemos o prazer de conhecer o Sr Pepe (Luis Carlos Pepe) que
foi um ótimo instrutor, orientador além de ser
uma singular Figuraça do meio náutico, sendo também
muito prestativo, pois ao retirarmos o Maquiavel da água,
logo pegou uma vassoura e começou a limpeza do casco
do mesmo.
Dia 31 de Março.
A vontade de navegar/velejar no São Gonçalo era
tanta que às 02h00min perdi o sono e fui até a
guarita do clube bater um papo com o pessoal, onde obtive informações
de que a ponte férrea e a eclusa estavam liberadas para
içamento e abertura. Ao amanhecer o dia, após
termos reposto combustível, gelo, comida e as geladas
no dia anterior, ficamos com a saída do clube obstruída
por uma enorme ilha de gigogas, tendo que aguardar o pessoal
do clube providenciar a retirada. Aproximadamente às
09h30min o pessoal abriu um canal possibilitando nossa saída.
UFA. Finalmente Canal São Gonçalo. Surpresa foi
quando ao entrarmos em contato via rádio com o pessoal
da ponte nos veio a noticia de que o elevador da mesma estava
em manutenção. Resultado foi o retorno ao VSG.
Como retornamos ao clube e nos sobrou bastante tempo, resolvemos
ir a Jaguarão de ônibus. Tivemos a sorte de pegar
o horário das 11h00min e retornamos às 17h00min.
O alvará de soltura tem um preço e deve ser honrado.
Hehehe.... Após as compras feitas, perfume, colares,
frisantes, etc.., retornamos ao clube. As pessoas não
imaginam do que são capazes. O Sr Reynaldo comeu pastel
com cerveja sentado na escada da rodoviária de Jaguarão,
comeu Marmitex de Ala minuta no VSG, comeu Xisburger, entre
outras tantas situações que se fizeram no decorrer
dessa aventura. São coisas que para a gurizada bem mais
nova que nós, são corriqueiras.
Dia 01 de Abril.
Sem previsão de operação do elevador da
ponte ferroviária. Após nova consulta aos sites
de previsão de tempo, viria no sábado uma frente
sul. Por aconselhamento do Sr Pepe, deveríamos aproveitar
esta frente para voltarmos com vento favorável. Fomos
ao centro de Pelotas, almoçamos com minha filha Anelise
que estuda na UFPEL, fizemos umas comprinhas (loiras geladas),
providenciamos gelo e começamos os preparativos para
um churrasquinho à noite, com muita troca de informações
e escutando muitas histórias de navegações
com o Sr Pepe, Sr Reynaldo e o Cmte André – Calypso
II, onde pude mostrar meus dotes de iniciante de churrasqueiro,
preparando aquela maminha recheada com bacon, cebola assada
no espeto, costela de porco e pão com pasta de alho feita
pelo Sr Reynaldo. Claro que tudo degustado com muita gelada.
Hehehe... Aguardando o anoitecer, conferimos os waypoints e
o rumo a seguir, sempre sob orientação do Sr Pepe.
Agradeço ao amigo Eurico – ICG pela indicação
da pessoa do Sr Pepe. Conhecemos outro velho navegador e fundador
o VSG (velho pela idade e principalmente pela experiência
em navegação), o Sr Fernando Gilberto Braunner
Vianna – Gangis II, que gentilmente me repassou MUITAS
informações sobre o Canal de São Gonçalo
e a Lagoa Mirim, inclusive tendo o trabalho de me fornecer cópias
preciosas da várias cartas destes locais. Montarei uma
pasta com essas informações.
Dia 02 de Abril.
Saída do VSG, rumo ao Farol Cristóvão Pereira.
O Andre já era conhecido nosso do Cruzeiro/Regata PoA
x Tapes e nos fez a gentileza de aguardar nossa saída
para que pudéssemos acompanhá-lo no retorno. 06h00min.
Saída do VSG rumo Cristóvão Pereira. Vento
Sul, conforme previsão, mais ou menos 10 nós.
Perfeito. A velocidade do casco aumentou significativamente
após a limpeza do casco, conforme tinha sido falado pelo
Sr Pepe. Navegamos calçados no motor com todo pano, na
esteira do Calypso.II Velocidade média em torno de 6,0
nós. Ao sairmos do canal da Feitoria, o Cmte André
sugeriu uma navegada a contra bordo para fazermos um carreteiro
com o excedente de maminha, onde mostrou seus dotes culinários.
São coisas que até se imagina que possa ser feito
mas, só realmente vivenciando é que se vê
como as pessoas são criativas, solidárias e que
a parceria na vela é algo impar e de imensurável
valor. Após o almoço a bordo do Calyso II, desfizemos
as amarras e nos dirigimos ao Alagado do Farol Cristóvão
Pereira que por sinal estava apagado, dificultando o fundeio
em função do calado do Calypso II. À noite,
fiz uma massa com carne de porco (Sorobô – no popular
o que sobrou do churrasco), tomamos umas loiras, aproveitei
para refletir um pouco me lembrando de como meu pai gostaria
de estar nos acompanhando nessa aventura, lembrando também
das minhas (esposa e filhas) e lembrando da musica que a esposa
do Sr Reynaldo lhe cantou por telefone quando estávamos
em Pelotas (Estou de volta pro meu aconchego), musica esta que
muito lhe emocionou. Como somos insignificantes perto da beleza
que são o céu e a imensidão das águas
da Lagoa dos Patos. Fundeados a contra bordo, passamos uma tranqüila
noite sem sustos e sem surpresas.
Dia 03 de Abril
Alagada do Cristovão Pereira a o Clube Náutico
Itapoá. 06h00min. Zarpamos após noite tranqüila
e sono restaurador. Vento praticamente Zero, rumo 15° Magnético
a partir do Cristovão Pereira. Hora G2 e Grande calçando
com motor, hora só motor, mas prosseguindo viagem. Na
altura do Farol de Itapoá fomos surpreendidos por uma
chamada no radio do amigo Eurico que estava fundeado na praia
do sitio. Demos uma entrada, abastecemos o tanque de combustível,
acenamos ao amigo e nos dirigimos ao CNI, onde procedemos as
amarras aproximadamente às 15h00min. Banho quente (que
delicia), Gelo, loiras geladas, mais tarde uma comidinha caseira
e mais loiras. Recarregamos mesmo que parcialmente nossas baterias.
Aproveitamos para testar o inversor, mas infelizmente não
funcionou. Está na garantia. Ainda bem que não
foi preciso o seu uso. Telefonemas dados, noticias boas de nosso
retorno “inteiros”, fomos dormir.
Dia 04 de Abril.
07h00min. Saída do CNI para o ICG, após boa noite
de sono, saímos do CNI motorando e logo após a
pleno pano. Pela primeira vez durante toda singradura, finalmente
velejamos. O O’Day é um ótimo veleiro. A
água do Guaíba estava boa, calma o que propiciou
uma ótima velejada. Deixamos a ilha Chico Manoel a boreste,
entramos no canal, deixamos a ilha do presídio também
a boreste e nos dirigimos ao ICG sorvendo as ultimas geladas
desta aventura. Às 14h00min atracamos, providenciamos
as amarras e enfim em casa. Lembro-me bem de um comentário
do Paulo Angonese, onde ele escreveu que da uma saudade de casa,
das pantufas, do sofá.............. Agradeço às
pessoas que propiciaram essa aventura em especial minha esposa,
minhas filhas e principalmente ao amigo Reynaldo que pode se
orgulhar de com seus 7.5 de idade, mesmo com a mente de guri
aventureiro, foi firme, correto, parceiro, companheiro, amigo.
Agradeço novamente ao André pela parceria, companhia
e pelas geladas que nos passou navegando. Enfim, falta comentar
que as pessoas que conhecemos no meio náutico são
uma classe que é, pode ser e deve ser respeitada pela
solidariedade, parceria, companheirismo, entre tantas outras
virtudes.
Obrigado
e BONS VENTOS
Norberto – Júnior