.....Programei
a navegada com alguns dias de antecedência. Consultando
sites de previsão de tempo. Vendo possibilidade de chuva,
velocidade e direção do vento. Calculei o que
poderia levar para passar uma noite tranquila, bem aquecido
e com alimentação para um bom jantar e café
da manhã. Meu barco era pequeno, 12 pés, cerca
de 4 metros. Eu tinha que levar pouco peso. A idéia era
sair na segunda e voltar na terça pela manhã,
minha folga. Há muitos dias estava na vontade de fazer
este acampamento de uma noite só. Dar uma boa velejada,
estar sozinho, fazer uma fogueira, tomar umas e pensar na vida.
Me isolar um pouco e contemplar a natureza num lugar que é
maravilhoso, a Lagoa dos Patos.
.....Tudo certo. Saí
de casa dia 14, uma segunda feira de dezembro, às 15
horas, levei comigo minha mochila grande com um cobertor enrolado
e acondicionado em dois sacos plásticos, a barraca,
um travesseiro pequeno e uma roupa impermeável. Cheguei
no Clube Náutico depois de ter passado no restaurante
em que almoço todos os dias para pegar alguns pedaços
de galeto e salsichão assados que já havia encomendado
ao meio dia. Ainda passei num armazém para comprar
mais dois quilos de banana, pois uma bananinha com pão
num barco tem o seu valor. Pronto, estava feito o farnel,
com mais dois litros de água, dois de coca cola, uma
cachaça com abacaxi para a festa da noite e meio pão
de sanduíche. Achei que era o suficiente. Toda essa
comida e bebida em outra mochila pequena.
.....Estacionei minha moto
debaixo de uma árvore perto do barco e comecei a montá-lo.
Ventinho fraco de leste, na tranquilidade terminei de ajeitar
as coisas dentro do holder, bem amarradas pra garantir. Coloquei
o tampão que trouxe de casa, uma rolha de champanhe.
Neste barco tem dois tampões para sair a água.
Um no cockpit e outro no lado de fora da popa para esgotar
o casco que é estanque. A rolha foi para o casco pois
o do cockpit já tinha, e era de rosca. Tirei os tênis
e os coloquei dentro do saco da vela, e o saco dentro do mochilão.
Eu estava de calção, camisa branca de manga
comprida, colete salva vidas, um chapeuzinho e óculos
escuros. Parti feliz da vida, dei dois bordos, e assim que
saí na Ponta dos Molhes já rumei para o Capão
da Lancha. O barco navegando bem estável, sol pegando,
dei uma arribadinha, pois estava indo era para a Ponta da
Ilhota. Com uma hora de navegada avistei o farolete da Ponta
do Banco, longe ainda. E o matinho da Ponta ainda se confundia
lá com o Santo Antônio.
.....O vento deu uma girada
para sueste, me obrigando a orçar. Tudo lindo até
que me pareceu que a popa estava mais baixa e o barco mais
pesado, adernava um pouco nesta orça já forçada
e entrava um pouco dágua na junção da
popa com o costado. Tirei água duas ou três vezes
do cockpit, mas senti que a embarcação pesou
mesmo. Levei a mão no lugar do tampão, que fica
no lado de fora da popa como já citei e senti que ele
não estava mais ali. E nisso entrou mais água
no cockpit, pois fiz peso. O holderzinho estava cheio dágua
no seu interior e começava a encher muito onde eu estava
pois as ondas já passavam por cima da proa por conta
do peso e do vento que havia aumentado sua força. A
mais ou menos duzentos metros da Ponta da Ilhota que já
estava bem visível na minha frente, e vendo o farolete
que ficava à minha direita, afundei virando, ou virei
afundando.
.....Tudo pra água,
que estava agradavelmente quente, mas senti um terrível
frio. Tudo boiando, e o barquinho indo para o fundo. Tentei
desvirá-lo rápido, talvez fazê-lo boiar
sem eu dentro, mais duas vezes, mas foi inútil, não
tinha mais jeito. Tudo molhado, as ondas altas. Tentei desvirar
pela última vez, mas não adiantava mais nada.
Consegui pegar o telefone depois destas tentativas frustradas,
mas já era tarde demais. Mesmo dentro de um saquinho
molhou e apagou. Foi a primeira coisa que joguei fora. O frio
ainda me parecia mais intenso. Logo pensei na cachaça.
Saquei a garrafa da mochila pequena e tomei uns três
goles bem fortes. Passou o frio na hora. Fechei-a e joguei
fora a segunda coisa. Não estava pensando em beber
mais.
..... Ainda fiquei pensando
um pouco o que faria naquele momento. Decidi não me
desesperar e tentar me acalmar o máximo possível.
Afinal, estava de colete salva vidas e sabia nadar. Pensei
em tentar puxar o barco para a beira da praia. Tirei o cabo
que caça a vela, amarrei uma ponta na proa e a outra
na minha perna esquerda, e comecei a nadar. Nadei muito tempo
contra o vento puxando aquele peso que só aumentava
a cada braçada que eu dava. Nadava devagar mas sem
parar. O vento aumentou e as ondas também. Nadando
de costas olhava para trás e a terra estava lá,
na mesma distância de quando comecei. Muito cansado
desamarrei o cabo da proa, peguei a mochila grande que estava
amarrada ao barco e prendi ao cabo, desamarrei da perna, tirei
o conjunto que estava na mochila grande e vesti a calça
e o casaco por cima do colete mesmo. Pensava em chegar na
praia com agasalho para não passar frio à noite,
e abandonei o barco com a outra mochila pequena com a comida
e a bebida. Não pensei em comer, e água tinha
da praia. Que eu me lembre foi esta a última coisa
que pensei, e sem eu perceber, apaguei. Mas isso só
fui saber depois. Bem depois.
.....Quando dei por mim estava
tomando banho na praia, mergulhando, me atirando na água
com muito prazer e felicidade. Como uma criança brincando.
Água pela cintura, bem pertinho da beira, numa prainha
com um enorme mato atrás. O sol estava já se
pondo atrás das árvores que eu não conseguia
definir se era eucalipto ou pinus. De repente me veio à
cabeça que eu não conhecia aquele lugar, nunca
tinha estado ali, estava achando muito estranho tudo aquilo,
e completamente confuso me caiu um cansaço sobre o
corpo que nunca havia sentido antes. Caí na beira,
água pelos joelhos e olhei para as mãos que
estavam completamente murchas e pensava: como eu poderia estar
com as mãos daquele jeito se passei pouco tempo dentro
dágua? Como eu poderia estar tão cansado? Não
estava entendendo nada.
.....Saí da água
e avistei a minha mochila que não pensava ser minha.
Completamente encharcada. Sentei ao lado dela. Olhava para
os lados e não reconhecia nada. O sol já se
punha atrás daquele mato alto, olhava em minha volta
e completamente confuso tentava imaginar o que eu poderia
estar fazendo ali naquele lugar que não me era nada
familiar. Pensei por um momento estar na beira do mar, as
ondas estavam grandes, mas logo lembrei que a água
de que acabei de sair era doce. Olhei para a mochila novamente,
abri, tirei o saco da vela com os tênis e não
os reconhecia. Tirei o cobertor que estava nos sacos plásticos,
que também estava completamente molhado e estendi na
areia. Olhei mais uma vez para os lados, não enxergava
ninguém, e a visão estava meio turva, estava
mais escuro, acho que tinha passado muito tempo pois eu estava
lento demais, tentei levantar e caminhar um pouco mas não
consegui, neste momento comecei a reconhecer minhas coisas
e lembrar do barco e caí em cima do cobertor já
dormindo, puxando um lado para me cobrir.
.....Quando me acordei a noite
estava escura, mas muito estrelada. A primeira coisa que pensei:
que noite linda, acho que nunca vi uma noite estrelada assim!
Neste momento me veio à cabeça o naufrágio
e o porquê eu estava ali. Muito confuso ainda, com uma
sede imensa me atirei na lagoa pra beber água. Me alertei
um pouco e vi as luzes que poderiam ser de Tapes, mas não
tinha certeza. Eu não sabia onde tinha ido parar. A
passos muito pesados e com muito frio me deitei de novo e
peguei no sono. Quando acordei o dia nascia maravilhoso. Eu,
apesar daquilo tudo que estava passando, via muita beleza
nas coisas, certamente porque sabia que estava vivo. Uma das
coisas que também me intrigava é que eu não
via o colete salva vidas e o casaco, e não os achei
mais. Olhava para todos os lados e não via nada disso.
Como eu poderia estar de colete quando comecei a nadar e agora
já salvo na praia não estava comigo mais? Muita
sede ao amanhecer, a água estava muito fria mas a sede
era implacavelmente maior. Me joguei e bebi muita água.
Me arrastando voltei ao cobertor e caí num sono profundo.
Quando a sede me acordou novamente o sol me torrava, e me
sentia muito, mas muito cansado.
..... Deitado ainda pensava
se conseguiria ir beber água e voltar para continuar
deitado, dormindo, descansando, procurando minhas forças
para tentar sair dali. Vi um avião agrícola
fazendo voos perto. Passava por cima de mim. Eu abanava mas
não tinha retorno. Ainda pensei, quem já não
acenou para um avião quando era criança? Eu
sempre acenava. Pensei em levantar e escrever socorro na areia,
mas não consegui. Caí num sono pesado sob o
sol escaldante. Quando o sol estava a pino levantei-me outra
vez para tomar água. Fui mais ao fundo pois vi que
tinha muito limo e estava muito calor. Queria me refrescar
um pouco. Quando saí de dentro dágua caminhei
um pouco em direção a uma sombra, mas não
consegui, caí e voltei me arrastando para o cobertor.
Dormi de novo. De repente escutei um grunido ou um grito de
uma ave que sentou num amaricá perto de mim. Parecia
uma águia, falcão ou coisa parecida. Pensei...
Será que estou ferido e esse bicho já está
na minha espreita, será que ele está prevendo
alguma coisa? Me olhei com calma e vi que realmente não
estava ferido mesmo. Levantei, arrastei o cobertor para dentro
dágua encharquei-o e o trouxe pra areia de novo, estiquei,
me deitei e novamente puxei um lado para me cobrir. Estava
muito calor mas a coberta molhada deu uma refrescada. A ave
já não estava mais lá quando acordei
com o sol passando do meio do céu.
.....Olhei bem para o outro
lado da praia onde eu estava, e avistei o Capão da
Lancha e a Ponta do Pinho, e logo me localizei, aquelas luzes
que tinha visto na noite anterior eram mesmo Tapes. Fiquei
mais tranquilo, mais ou menos localizado, só faltava
uma coisa: sair dali. Mas ainda não estava em condições.
Novamente me deitei e dormi. Quando acordo novamente me veio
Deus na cabeça. Na cabeça confusa é claro,
estonteada. Pensei: puxa vida, depois de eu ter aprontado
essa será que tenho moral pra pedir alguma coisa? Todo
mundo reclama a Ele quando está na pior, não
é mesmo? Ainda questionei minha fé, pois não
tinha certeza naquele momento se acreditava em Deus. E se
acreditasse mesmo, que Deus era esse? Decidi não pedir
nada. Pois se pensar por este lado da filosofia da fé,
ou da religiosidade, eu já havia ganho minha chance.
Agora era fazer por mim. O negócio era levantar dali
e pegar meu rumo. Tentar achar meu barco, que pensava ter
ido parar na beira da praia, como eu. Subir nele e velejar
para casa. Adiei mais algumas horas aquela decisão.
Até pensar me cansava muito.
..... No final da tarde, quando
o sol estava baixando atrás do mato, tomei coragem,
pois considerei que passar mais uma noite naquele lugar não
seria nada bom. E pegar mais um dia de sol seria pior ainda.
Me sentei. Coloquei os tênis, lembro que amarrei bem.
Coloquei o chapéu, que não sei como ainda estava
comigo. Peguei o cabo do barco, pois estava com a idéia
fixa que iria encontrá-lo e deixando todo o resto para
trás saí caminhando em direção
a Tapes. Nos primeiros dez passos fui bem. Confiante e seguro,
mas durou pouco toda essa força e me fui ao chão
com vontade. Cinco minutos para o descanso. Levantei-me e
logo em seguida tinha um pequeno banhado que dava bem acima
dos joelhos. Passei e me deitei do outro lado. Caindo e levantando,
assim fui até uma sanguinha que sai na praia. Uma puxada
dágua para lavoura de arroz. Uns cinco metros de largura
e a água desta vez bateu acima da cintura.
.....Logo que passei esta água,
que já ficava a uns quatrocentos metros de onde eu
estava, avistei um trator trabalhando na beira da praia. Barbaridade,
me bateu um alívio, tô salvo, neste instante
também avistei uma casa de janela aberta que ficava
à minha esquerda, a uns trezentos metros de onde eu
estava. Mas segui em direção ao trator que ficava
um pouco mais longe porque eu estava vendo a pessoa e na casa
não via ninguém. Mas como eu caminhava alguns
metros e caía, e descansava um pouco, demorei para
chegar até a máquina. Passei todo esse trajeto
acenando para o tratorista, imaginando que a qualquer momento
ele poderia sair dali. Pensava ainda, putz, esse cara tá
pensando que eu estou bêbado na beira da praia e tá
fingindo que nem tá me vendo. Fui chegando até
me atirar na frente do trator. Foi quando ele parou e desceu
para me perguntar o que estava acontecendo.
.....Expliquei que tinha naufragado
no dia anterior e que tinha nadado até a praia e precisava
de ajuda. E que estava com muita sede. Ele me perguntou, mas
desde quando eu estava ali. Eu disse a ele, virei ontem, segunda
feira. Ele me falou, mas hoje é quarta feira. Aí,
neste momento, minha cabeça deu mais uma volta e me
confundi mais do que estava. Mas resolvi não acreditar
nele. E só pedi que me arrumasse uma água limpa
para beber, que até aquele momento só havia
bebido água da lagoa. Perguntei também se ele
não tinha um celular que eu pudesse fazer uma ligação.
Mas não tinha. Ele estava meio assustado, e me disse
que ia buscar água.Vi o trator se afastando e imaginei:
não vai voltar mais. Achou que eu era um louco, bêbado,
bandido, sei lá. Ainda bem que me enganei. Voltou com
um litro de água e disse que já voltava com
ajuda. Pensei novamente que não voltaria. Pois desta
vez demorou mais ainda. E o sol já tinha ido há
muito tempo, e a noite estava chegando.
.....Daqui a pouco chegou um
outro senhor de moto com uma menina na garupa. Assustado também,
veio chegando de mansinho. Eu continuava na horizontal, atirado
na areia como um trapo. Expliquei tudo de novo. A menina me
espreitava de longe, curiosa e assustada. Eu disse que era
de Tapes, que tinha um bar, citei alguns nomes de lavoreiros.
Ele me sugeriu chamar a polícia para me levar dali.
Eu disse que ele podia chamar quem quisesse, mas que precisava
ir para a cidade, pois necessitava de auxilio médico.
Neste momento acho que passou o susto dele e ordenou que a
menina fosse buscar a caminhonete. Ela subiu na moto e fez
o que ele mandou. Veio com o veículo que ficou ainda
a uns cem metros de onde eu estava. Caminhei tastaviando até
chegar à caminhonete e saímos dali. Parou na
casa dele e disse que só iria trocar de roupa e já
voltava. Me ofereceu alguma coisa para comer, se eu quisesse
tomar um café. Eu disse que não, mas se me conseguisse
uma água bem gelada eu aceitaria, pois estava morrendo
de sede. Prontamente me trouxe a água e viemos para
Tapes. Pedi para me deixar no meu bar, onde também
moro. Já era quase noite escura. Fiz questão
de pagar-lhe o óleo que gastou pra me trazer. Ele não
queria aceitar, mas fiz questão.
.....A primeira coisa que fiz
quando entrei em casa foi tomar uma coca cola bem gelada.
Depois um banho. Me atirei na cama e tocou o telefone. Não
atendi. Tocou de novo. Minha mãe preocupada. Disse
que havia chegado mas precisava de um remédio para
febre pois achava que estava meio quente demais. Vieram correndo,
ela e meu irmão. Me levaram direto para o hospital.
Soro com medicamentos e fui embora em seguida. Dez dias de
descanso em casa, sob os cuidados da mãe. Muito suco,
frutas, água e boa alimentação. Aos poucos
fui colocando as idéias em ordem. Logo que cheguei
em Tapes, perguntava sem parar que dia era. Todos me diziam:
quarta feira, Chico, quarta feira.
..... Fui colocando as idéias
no lugar e percebi que fiquei à deriva de segunda feira,
às 17:30, até terça feira, mais ou menos
oito da noite, e que fiquei mais uma noite e um dia na beira
da praia. Ou seja, quase sessenta horas de sufoco. Mas o mais
intrigante desta história toda é eu ter ficado
vinte e tantas horas dentro dágua e não me lembrar
de nada deste período. Meu amigo, Dr. Roberto Debom,
tem uma explicação científica pra isso,
diz que quem comanda nestas horas é o sistema nervoso
autônomo. Minha mãe acha que foi um milagre.
Eu acho que foram as duas coisas que se somaram com um corpo
físico em ordem, a minha vontade de sair daquela situação,
perseverança, equilíbrio emocional e talvez
um pouco de experiência de vida. Em momento algum eu
pensei que ia morrer.