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A História de um naufrágio na lagoa

Em dezembro de 2009, o “Chico do Bar da Torre” (Francisco Hardt), saiu do CNT com seu “holder” 12 pés para pernoitar no Pontal de Tapes. Inesperadamente, um tampão do casco apresentou problemas. O vento e as ondas que vinham aumentando com o final da tarde, acabaram por afundar o barco em poucos minutos. Com a ajuda do colete salva-vidas e da mochila de roupas, ele nadou até o início da noite. Exausto, o velejador ficou inconsciente e a deriva no meio da lagoa. O náufrago só retomou a consciência no final do dia seguinte em uma praia deserta, onde, mesmo enfraquecido, continuou a sua luta pela sobrevivência. Dias depois de ser resgatado, o Chico colocou tudo no papel. A seu pedido, o texto está na íntegra, sem edição. Sempre é bom lembrar que ninguém está livre de passar por uma situação destas. Também no ano passado o Rubinei Soares do Don Bruno/CNT passou por apuros. Um problema com o túnel do leme quase levou ao fundo o seu veleiro. O relato destas desventuras torna-se então, uma verdadeira escola para enfrentar as situações inesperadas para quem navega. Imagem do Chico no “holder” que naufragou/arquivos do Conjuminando.
 
 

 

NAVEGANDO NO ESCURO
por Francisco Hardt (texto na íntegra)

.....Programei a navegada com alguns dias de antecedência. Consultando sites de previsão de tempo. Vendo possibilidade de chuva, velocidade e direção do vento. Calculei o que poderia levar para passar uma noite tranquila, bem aquecido e com alimentação para um bom jantar e café da manhã. Meu barco era pequeno, 12 pés, cerca de 4 metros. Eu tinha que levar pouco peso. A idéia era sair na segunda e voltar na terça pela manhã, minha folga. Há muitos dias estava na vontade de fazer este acampamento de uma noite só. Dar uma boa velejada, estar sozinho, fazer uma fogueira, tomar umas e pensar na vida. Me isolar um pouco e contemplar a natureza num lugar que é maravilhoso, a Lagoa dos Patos.

.....Tudo certo. Saí de casa dia 14, uma segunda feira de dezembro, às 15 horas, levei comigo minha mochila grande com um cobertor enrolado e acondicionado em dois sacos plásticos, a barraca, um travesseiro pequeno e uma roupa impermeável. Cheguei no Clube Náutico depois de ter passado no restaurante em que almoço todos os dias para pegar alguns pedaços de galeto e salsichão assados que já havia encomendado ao meio dia. Ainda passei num armazém para comprar mais dois quilos de banana, pois uma bananinha com pão num barco tem o seu valor. Pronto, estava feito o farnel, com mais dois litros de água, dois de coca cola, uma cachaça com abacaxi para a festa da noite e meio pão de sanduíche. Achei que era o suficiente. Toda essa comida e bebida em outra mochila pequena.

.....Estacionei minha moto debaixo de uma árvore perto do barco e comecei a montá-lo. Ventinho fraco de leste, na tranquilidade terminei de ajeitar as coisas dentro do holder, bem amarradas pra garantir. Coloquei o tampão que trouxe de casa, uma rolha de champanhe. Neste barco tem dois tampões para sair a água. Um no cockpit e outro no lado de fora da popa para esgotar o casco que é estanque. A rolha foi para o casco pois o do cockpit já tinha, e era de rosca. Tirei os tênis e os coloquei dentro do saco da vela, e o saco dentro do mochilão. Eu estava de calção, camisa branca de manga comprida, colete salva vidas, um chapeuzinho e óculos escuros. Parti feliz da vida, dei dois bordos, e assim que saí na Ponta dos Molhes já rumei para o Capão da Lancha. O barco navegando bem estável, sol pegando, dei uma arribadinha, pois estava indo era para a Ponta da Ilhota. Com uma hora de navegada avistei o farolete da Ponta do Banco, longe ainda. E o matinho da Ponta ainda se confundia lá com o Santo Antônio.

.....O vento deu uma girada para sueste, me obrigando a orçar. Tudo lindo até que me pareceu que a popa estava mais baixa e o barco mais pesado, adernava um pouco nesta orça já forçada e entrava um pouco dágua na junção da popa com o costado. Tirei água duas ou três vezes do cockpit, mas senti que a embarcação pesou mesmo. Levei a mão no lugar do tampão, que fica no lado de fora da popa como já citei e senti que ele não estava mais ali. E nisso entrou mais água no cockpit, pois fiz peso. O holderzinho estava cheio dágua no seu interior e começava a encher muito onde eu estava pois as ondas já passavam por cima da proa por conta do peso e do vento que havia aumentado sua força. A mais ou menos duzentos metros da Ponta da Ilhota que já estava bem visível na minha frente, e vendo o farolete que ficava à minha direita, afundei virando, ou virei afundando.

.....Tudo pra água, que estava agradavelmente quente, mas senti um terrível frio. Tudo boiando, e o barquinho indo para o fundo. Tentei desvirá-lo rápido, talvez fazê-lo boiar sem eu dentro, mais duas vezes, mas foi inútil, não tinha mais jeito. Tudo molhado, as ondas altas. Tentei desvirar pela última vez, mas não adiantava mais nada. Consegui pegar o telefone depois destas tentativas frustradas, mas já era tarde demais. Mesmo dentro de um saquinho molhou e apagou. Foi a primeira coisa que joguei fora. O frio ainda me parecia mais intenso. Logo pensei na cachaça. Saquei a garrafa da mochila pequena e tomei uns três goles bem fortes. Passou o frio na hora. Fechei-a e joguei fora a segunda coisa. Não estava pensando em beber mais.

..... Ainda fiquei pensando um pouco o que faria naquele momento. Decidi não me desesperar e tentar me acalmar o máximo possível. Afinal, estava de colete salva vidas e sabia nadar. Pensei em tentar puxar o barco para a beira da praia. Tirei o cabo que caça a vela, amarrei uma ponta na proa e a outra na minha perna esquerda, e comecei a nadar. Nadei muito tempo contra o vento puxando aquele peso que só aumentava a cada braçada que eu dava. Nadava devagar mas sem parar. O vento aumentou e as ondas também. Nadando de costas olhava para trás e a terra estava lá, na mesma distância de quando comecei. Muito cansado desamarrei o cabo da proa, peguei a mochila grande que estava amarrada ao barco e prendi ao cabo, desamarrei da perna, tirei o conjunto que estava na mochila grande e vesti a calça e o casaco por cima do colete mesmo. Pensava em chegar na praia com agasalho para não passar frio à noite, e abandonei o barco com a outra mochila pequena com a comida e a bebida. Não pensei em comer, e água tinha da praia. Que eu me lembre foi esta a última coisa que pensei, e sem eu perceber, apaguei. Mas isso só fui saber depois. Bem depois.

.....Quando dei por mim estava tomando banho na praia, mergulhando, me atirando na água com muito prazer e felicidade. Como uma criança brincando. Água pela cintura, bem pertinho da beira, numa prainha com um enorme mato atrás. O sol estava já se pondo atrás das árvores que eu não conseguia definir se era eucalipto ou pinus. De repente me veio à cabeça que eu não conhecia aquele lugar, nunca tinha estado ali, estava achando muito estranho tudo aquilo, e completamente confuso me caiu um cansaço sobre o corpo que nunca havia sentido antes. Caí na beira, água pelos joelhos e olhei para as mãos que estavam completamente murchas e pensava: como eu poderia estar com as mãos daquele jeito se passei pouco tempo dentro dágua? Como eu poderia estar tão cansado? Não estava entendendo nada.

.....Saí da água e avistei a minha mochila que não pensava ser minha. Completamente encharcada. Sentei ao lado dela. Olhava para os lados e não reconhecia nada. O sol já se punha atrás daquele mato alto, olhava em minha volta e completamente confuso tentava imaginar o que eu poderia estar fazendo ali naquele lugar que não me era nada familiar. Pensei por um momento estar na beira do mar, as ondas estavam grandes, mas logo lembrei que a água de que acabei de sair era doce. Olhei para a mochila novamente, abri, tirei o saco da vela com os tênis e não os reconhecia. Tirei o cobertor que estava nos sacos plásticos, que também estava completamente molhado e estendi na areia. Olhei mais uma vez para os lados, não enxergava ninguém, e a visão estava meio turva, estava mais escuro, acho que tinha passado muito tempo pois eu estava lento demais, tentei levantar e caminhar um pouco mas não consegui, neste momento comecei a reconhecer minhas coisas e lembrar do barco e caí em cima do cobertor já dormindo, puxando um lado para me cobrir.

.....Quando me acordei a noite estava escura, mas muito estrelada. A primeira coisa que pensei: que noite linda, acho que nunca vi uma noite estrelada assim! Neste momento me veio à cabeça o naufrágio e o porquê eu estava ali. Muito confuso ainda, com uma sede imensa me atirei na lagoa pra beber água. Me alertei um pouco e vi as luzes que poderiam ser de Tapes, mas não tinha certeza. Eu não sabia onde tinha ido parar. A passos muito pesados e com muito frio me deitei de novo e peguei no sono. Quando acordei o dia nascia maravilhoso. Eu, apesar daquilo tudo que estava passando, via muita beleza nas coisas, certamente porque sabia que estava vivo. Uma das coisas que também me intrigava é que eu não via o colete salva vidas e o casaco, e não os achei mais. Olhava para todos os lados e não via nada disso. Como eu poderia estar de colete quando comecei a nadar e agora já salvo na praia não estava comigo mais? Muita sede ao amanhecer, a água estava muito fria mas a sede era implacavelmente maior. Me joguei e bebi muita água. Me arrastando voltei ao cobertor e caí num sono profundo. Quando a sede me acordou novamente o sol me torrava, e me sentia muito, mas muito cansado.

..... Deitado ainda pensava se conseguiria ir beber água e voltar para continuar deitado, dormindo, descansando, procurando minhas forças para tentar sair dali. Vi um avião agrícola fazendo voos perto. Passava por cima de mim. Eu abanava mas não tinha retorno. Ainda pensei, quem já não acenou para um avião quando era criança? Eu sempre acenava. Pensei em levantar e escrever socorro na areia, mas não consegui. Caí num sono pesado sob o sol escaldante. Quando o sol estava a pino levantei-me outra vez para tomar água. Fui mais ao fundo pois vi que tinha muito limo e estava muito calor. Queria me refrescar um pouco. Quando saí de dentro dágua caminhei um pouco em direção a uma sombra, mas não consegui, caí e voltei me arrastando para o cobertor. Dormi de novo. De repente escutei um grunido ou um grito de uma ave que sentou num amaricá perto de mim. Parecia uma águia, falcão ou coisa parecida. Pensei... Será que estou ferido e esse bicho já está na minha espreita, será que ele está prevendo alguma coisa? Me olhei com calma e vi que realmente não estava ferido mesmo. Levantei, arrastei o cobertor para dentro dágua encharquei-o e o trouxe pra areia de novo, estiquei, me deitei e novamente puxei um lado para me cobrir. Estava muito calor mas a coberta molhada deu uma refrescada. A ave já não estava mais lá quando acordei com o sol passando do meio do céu.

.....Olhei bem para o outro lado da praia onde eu estava, e avistei o Capão da Lancha e a Ponta do Pinho, e logo me localizei, aquelas luzes que tinha visto na noite anterior eram mesmo Tapes. Fiquei mais tranquilo, mais ou menos localizado, só faltava uma coisa: sair dali. Mas ainda não estava em condições. Novamente me deitei e dormi. Quando acordo novamente me veio Deus na cabeça. Na cabeça confusa é claro, estonteada. Pensei: puxa vida, depois de eu ter aprontado essa será que tenho moral pra pedir alguma coisa? Todo mundo reclama a Ele quando está na pior, não é mesmo? Ainda questionei minha fé, pois não tinha certeza naquele momento se acreditava em Deus. E se acreditasse mesmo, que Deus era esse? Decidi não pedir nada. Pois se pensar por este lado da filosofia da fé, ou da religiosidade, eu já havia ganho minha chance. Agora era fazer por mim. O negócio era levantar dali e pegar meu rumo. Tentar achar meu barco, que pensava ter ido parar na beira da praia, como eu. Subir nele e velejar para casa. Adiei mais algumas horas aquela decisão. Até pensar me cansava muito.

..... No final da tarde, quando o sol estava baixando atrás do mato, tomei coragem, pois considerei que passar mais uma noite naquele lugar não seria nada bom. E pegar mais um dia de sol seria pior ainda. Me sentei. Coloquei os tênis, lembro que amarrei bem. Coloquei o chapéu, que não sei como ainda estava comigo. Peguei o cabo do barco, pois estava com a idéia fixa que iria encontrá-lo e deixando todo o resto para trás saí caminhando em direção a Tapes. Nos primeiros dez passos fui bem. Confiante e seguro, mas durou pouco toda essa força e me fui ao chão com vontade. Cinco minutos para o descanso. Levantei-me e logo em seguida tinha um pequeno banhado que dava bem acima dos joelhos. Passei e me deitei do outro lado. Caindo e levantando, assim fui até uma sanguinha que sai na praia. Uma puxada dágua para lavoura de arroz. Uns cinco metros de largura e a água desta vez bateu acima da cintura.

.....Logo que passei esta água, que já ficava a uns quatrocentos metros de onde eu estava, avistei um trator trabalhando na beira da praia. Barbaridade, me bateu um alívio, tô salvo, neste instante também avistei uma casa de janela aberta que ficava à minha esquerda, a uns trezentos metros de onde eu estava. Mas segui em direção ao trator que ficava um pouco mais longe porque eu estava vendo a pessoa e na casa não via ninguém. Mas como eu caminhava alguns metros e caía, e descansava um pouco, demorei para chegar até a máquina. Passei todo esse trajeto acenando para o tratorista, imaginando que a qualquer momento ele poderia sair dali. Pensava ainda, putz, esse cara tá pensando que eu estou bêbado na beira da praia e tá fingindo que nem tá me vendo. Fui chegando até me atirar na frente do trator. Foi quando ele parou e desceu para me perguntar o que estava acontecendo.

.....Expliquei que tinha naufragado no dia anterior e que tinha nadado até a praia e precisava de ajuda. E que estava com muita sede. Ele me perguntou, mas desde quando eu estava ali. Eu disse a ele, virei ontem, segunda feira. Ele me falou, mas hoje é quarta feira. Aí, neste momento, minha cabeça deu mais uma volta e me confundi mais do que estava. Mas resolvi não acreditar nele. E só pedi que me arrumasse uma água limpa para beber, que até aquele momento só havia bebido água da lagoa. Perguntei também se ele não tinha um celular que eu pudesse fazer uma ligação. Mas não tinha. Ele estava meio assustado, e me disse que ia buscar água.Vi o trator se afastando e imaginei: não vai voltar mais. Achou que eu era um louco, bêbado, bandido, sei lá. Ainda bem que me enganei. Voltou com um litro de água e disse que já voltava com ajuda. Pensei novamente que não voltaria. Pois desta vez demorou mais ainda. E o sol já tinha ido há muito tempo, e a noite estava chegando.

.....Daqui a pouco chegou um outro senhor de moto com uma menina na garupa. Assustado também, veio chegando de mansinho. Eu continuava na horizontal, atirado na areia como um trapo. Expliquei tudo de novo. A menina me espreitava de longe, curiosa e assustada. Eu disse que era de Tapes, que tinha um bar, citei alguns nomes de lavoreiros. Ele me sugeriu chamar a polícia para me levar dali. Eu disse que ele podia chamar quem quisesse, mas que precisava ir para a cidade, pois necessitava de auxilio médico. Neste momento acho que passou o susto dele e ordenou que a menina fosse buscar a caminhonete. Ela subiu na moto e fez o que ele mandou. Veio com o veículo que ficou ainda a uns cem metros de onde eu estava. Caminhei tastaviando até chegar à caminhonete e saímos dali. Parou na casa dele e disse que só iria trocar de roupa e já voltava. Me ofereceu alguma coisa para comer, se eu quisesse tomar um café. Eu disse que não, mas se me conseguisse uma água bem gelada eu aceitaria, pois estava morrendo de sede. Prontamente me trouxe a água e viemos para Tapes. Pedi para me deixar no meu bar, onde também moro. Já era quase noite escura. Fiz questão de pagar-lhe o óleo que gastou pra me trazer. Ele não queria aceitar, mas fiz questão.

.....A primeira coisa que fiz quando entrei em casa foi tomar uma coca cola bem gelada. Depois um banho. Me atirei na cama e tocou o telefone. Não atendi. Tocou de novo. Minha mãe preocupada. Disse que havia chegado mas precisava de um remédio para febre pois achava que estava meio quente demais. Vieram correndo, ela e meu irmão. Me levaram direto para o hospital. Soro com medicamentos e fui embora em seguida. Dez dias de descanso em casa, sob os cuidados da mãe. Muito suco, frutas, água e boa alimentação. Aos poucos fui colocando as idéias em ordem. Logo que cheguei em Tapes, perguntava sem parar que dia era. Todos me diziam: quarta feira, Chico, quarta feira.

..... Fui colocando as idéias no lugar e percebi que fiquei à deriva de segunda feira, às 17:30, até terça feira, mais ou menos oito da noite, e que fiquei mais uma noite e um dia na beira da praia. Ou seja, quase sessenta horas de sufoco. Mas o mais intrigante desta história toda é eu ter ficado vinte e tantas horas dentro dágua e não me lembrar de nada deste período. Meu amigo, Dr. Roberto Debom, tem uma explicação científica pra isso, diz que quem comanda nestas horas é o sistema nervoso autônomo. Minha mãe acha que foi um milagre. Eu acho que foram as duas coisas que se somaram com um corpo físico em ordem, a minha vontade de sair daquela situação, perseverança, equilíbrio emocional e talvez um pouco de experiência de vida. Em momento algum eu pensei que ia morrer.

Em tempo...

O “Chico do Bar da Torre” (Francisco Hardt), iniciou no início de março/2010, a recuperação do seu “holder”. O mesmo naufragou em dezembro, tendo aparecido nas margens da lagoa em janeiro. Apesar das avarias e da grande quantidade de areia que alojou-se no casco, o Chico disse que em breve estará navegando com ele.

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